Laudo do IML-RJ aponta que 2 tiros que mataram capitão Adriano foram dados a mais de 1,5 m de distância

O ex-policial militar Adriano Magalhães da Nóbrega morreu em 9 de fevereiro, em Esplanada, na Bahia, com dois disparos no confronto que teve com a polícia. A necropsia do Instituto Médico Legal do Rio, obtido pelo G1, mostra que os disparos contra o capitão Adriano – como ele era conhecido – foram feitos a uma distância superior a 1,5 metro e que não há evidências de tortura.

O corpo de Adriano ainda apresentava outros ferimentos, o que pode indicar que ele tenha sido torturado.

Segundo a Secretaria de Segurança Pública (SSP-BA), o ex-capitão do Batalhão de Operações Especiais (Bope) da Polícia Militar do Rio de Janeiro passou a ser monitorado por equipes do órgão a partir de informações de que ele teria buscado esconderijo na Bahia.

A primeira perícia teve fotos divulgadas pela revista "Veja" em 14 de fevereiro. Na ocasião, a análise indicava, segundo a reportagem, que Adriano foi morto por disparos a curta distância. A perícia feita pelo Departamento Geral de Polícia Técnico-Científica, da Secretaria de Polícia Civil do RJ, considera curta distância apernas quando é inferior a 1,5 metro.

Os peritos não conseguiram responder o questionamento do MP sobre a distância dos atiradores para Adriano.
Imagens da autópsia também sugerem que o miliciano tinha um ferimento na cabeça e uma queimadura no lado esquerdo do peito.

O documento ao que o G1 teve acesso trata da segunda perícia feita no corpo de Adriano da Nóbrega e que aconteceu a pedido do Ministério Público da Bahia. Semelhante à primeira perícia, o corpo de Adriano apresentava um ferimento na cabeça e a queimadura no peito.

Após a apresentação da primeira análise, o MP pediu à Justiça que o Departamento de Perícia Técnica (DPT) do IML do Rio de Janeiro que apurasse pontos que considerava sem respostas:

A direção que os projéteis percorreram no corpo;
O calibre das armas usadas nos disparos;
A distância entre os atiradores e Adriano;
E outras informações que considerem relevantes.

De acordo com os peritos Ricardo Campos Barcellos e Gabriela Graça Pinto, os tiros foram dados por uma carabina IA2, calibre 556, e por um fuzil 7.62.

As armas são as mesmas que estavam com os policiais no momento da operação que cercou o miliciano no sítio de um vereador no interior da Bahia. Os projéteis das armas não foram encontrados para análise.

De acordo com a perícia, o estado de decomposição do corpo de Adriano não permite determinar as lesões que levaram à sua morte. No entanto, dizem que os disparos atingiram o coração e os pulmões e que a causa da morte pode ter se dado por lesões nestes órgãos. Os disparos quebraram a clavícula direita e os arcos das costas do lado direito e do lado esquerdo.

As fraturas, segundo a perícia, "são compatíveis com as produzidas pela energia dissipada pela passagem de projéteis de arma de fogo".
De acordo com o exame realizado, Adriano foi atingido por dois disparos:

Um foi de baixo para cima. Entrou pelo peito (lado esquerdo), saiu na parte central do corpo e voltou a entrar no pescoço e sair por trás.
O outro disparo foi de cima para baixo. Entrou um pouco acima do peito (região clavicular direita) e saiu na parte direita das costas
Em sua análise, os peritos informam que não é possível dizer qual ferimento causou a morte do miliciano.

"Dentro desse cenário observado, as lesões tem alta letalidade e não se opõem os peritos, que a causa da morte tenha se dado por lesões em tais órgãos, com consequente hemorragia e choque; nota-se ainda, ausência de zona de tatuagem ao derredor dos ferimentos que tem características de entrada de projetil de arma de fogo, permitindo aos peritos afirmarem, tratar-se de disparos de arma de fogo à distâncias não próximas da vítima."

O exame no corpo de Adriano começou às 17h do dia 20 de fevereiro e durou 4 horas e 30 minutos. Essa perícia aconteceu após a Justiça do Rio impedir a cremação como queria a família do miliciano.

O laudo ao que o G1 teve acesso foi assinado pelos peritos Ricardo Campos Barcellos e Gabriela Graça Pinto e acompanhado por peritos da Bahia, pelo promotor Dario Jose Kist e por peritos e advogados contratados pela família de Adriano da Nóbrega.
Em sua análise, os peritos atestaram que pela falta das vísceras e pelo estado de conservação do corpo não há como dizer com certeza qual foi o caminho que os tiros percorreram e nem a causa exata da morte.

Mas o documento indica que a causa da morte tenha se dado por lesões no coração e nos pulmões – com consequente hemorragia e choque.

A perícia encontrou ainda dois ferimentos no corpo de Adriano. Um na cabeça, de 34 milímetros, ainda feito em vida, segundo os peritos. Uma parte do couro cabeludo foi retirado para análise. Essa é uma das indicações de que o miliciano possa ter sido torturado antes de morrer.

Há ainda um outro ferimento no peito do capitão Adriano. Os peritos não conseguiram concluir se o ferimento foi sofrido ainda em vida.

Também não foi possível saber como aconteceu. Porém há hipóteses de que a ação tenha sido mecânica ou térmica. Levanta-se a possibilidade de que o ferimento tenha sido provocado pelo cano quente do fuzil. Isso ainda será investigado.

A análise mostrou ainda que Adriano não tinha lesões nas palmas das mãos, na região sexual, na boca ou membros superiores e inferiores. Havia lesões internas provocadas pela passagem de fragmentos de projetil de arma de fogo – fragmentos esses que não foram encontrados.

No corpo de Adriano da Nóbrega ainda havia três arranhões em diferentes pontos da testa.
Na época da primeira perícia, ainda em fevereiro, o senador Flávio Bolsonaro divulgou nas redes sociais imagens que ele diz ser do corpo de Adriano no IML e um texto.

Na ocasião, o senador escreveu: “Perícia da Bahia (do governo PT) diz não ser possível afirmar se Adriano foi torturado. Foram 7 costelas quebradas, coronhada na cabeça, queimadura com ferro quente no peito, dois tiros à queima-roupa (um na garganta de baixo para cima e outro no tórax, que perfurou coração e pulmões)”.

O secretário da Segurança Pública da Bahia, Maurício Barbosa, disse, na ocasião, que o vídeo "não é reconhecido como autêntico pela perícia baiana ou pela perícia do Rio de Janeiro". “As imagens não foram feitas nas instalações oficiais do instituto médico legal. Então nós temos a clara convicção de que isso é para trazer algum tipo de dúvida, de questionamento, a um trabalho que ainda não foi concluído", afirmou.

G1

Nenhum comentário

Faça seu comentário

Tecnologia do Blogger.